Cooperativismo da agricultura familiar ganha centralidade em painel da Unicafes na COP30
20 de novembro de 2025

A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes Brasil) realizou no dia 19 de novembro, seu painel oficial na COP30, na Blue Zone, reunindo lideranças nacionais e internacionais para debater o papel estratégico do cooperativismo e da agricultura familiar no enfrentamento à crise climática e na promoção da segurança alimentar.

 

O encontro, moderado pelo presidente da Associação Unicafes, Aparecido Alves de Souza, contou com a participação de Fátima Torres, presidente da Confederação Unicafes; Andrew Allimadi, Ponto Focal da ONU para Cooperativas; Fabíola Zerbini, diretora-executiva da Conexsus; Gisele Obara, diretora da Trias Brasil; Shereen Zorba, secretária executiva do Fórum ONU Ciência-Política-Empresas para o Meio Ambiente (UN-SPBF); e Lily Tanui, oficial de projetos em Ação Climática da Federação Nacional dos Agricultores do Quênia (Kenaff) e representante da World Farmers Organization (WFO).

 

O painel teve como objetivo destacar a centralidade do cooperativismo e da agricultura familiar dentro da agenda climática global, reforçando que não há transição ecológica possível sem o protagonismo das comunidades que produzem alimentos, conservam territórios e sustentam economias locais.

 

Fortalecer o movimento cooperativista em âmbito mundial
O primeiro a falar foi Andrew Allimadi, que explicou que sua atuação na ONU tem como prioridade fortalecer o movimento cooperativista em âmbito mundial. Ele celebrou o Ano Internacional do Cooperativismo, ressaltando que este marco estimulou debates e políticas públicas em diversos países, e lembrou que as cooperativas agrícolas são reconhecidas como o segmento mais bem-sucedido dentro do cooperativismo, dada sua relevância para o sistema alimentar global.

 

Para Allimadi, sem as cooperativas de pequenos produtores e de agricultura familiar, a produção mundial de alimentos seria significativamente menor, especialmente nos países em desenvolvimento. Ele alertou para o aumento da insegurança alimentar apontado pela FAO, afirmando que as metas climáticas da COP não serão alcançadas sem fortalecer a adaptação e a mitigação nas bases produtivas. Destacou ainda que 2026 será o Ano Internacional das Mulheres Agricultoras, enfatizando que elas representam cerca de 40% dos pequenos agricultores no mundo, mas continuam enfrentando fortes barreiras, inclusive em países onde a legislação impede que mulheres sejam proprietárias de terras.

 

Allimadi elogiou a Unicafes, afirmando que sua experiência organizativa pode servir de referência para outros países, e concluiu lembrando que apenas cerca de 30% das metas de desenvolvimento sustentável devem ser atingidas até 2030, com maior risco justamente para os objetivos que tratam de empoderamento feminino e combate à fome. Por isso, reafirmou: o cooperativismo é essencial para construir um mundo mais sustentável e justo.

 

Modelos cooperativos
A seguir, Shereen Zorba afirmou que, no Ano Internacional do Cooperativismo, o mundo tem muito a aprender com os modelos cooperativos, especialmente quando se trata de salvar vidas, combater as mudanças climáticas e fortalecer formas coletivas de atuação. Ela destacou ter ficado profundamente impactada ao acompanhar de perto o trabalho de cooperativas brasileiras, sobretudo na Amazônia, onde viu de perto experiências de organização comunitária que aliam produção, conservação e participação social.

 

Economia deve servir às pessoas e à natureza
Na sequência, Fabíola Zerbini destacou que esta é a COP da participação da sociedade civil, das comunidades tradicionais, dos agricultores familiares, campesinos e povos indígenas, que finalmente ocupam com força e legitimidade o centro da discussão climática. Ela defendeu que a economia deve servir às pessoas e à natureza, e não o contrário, e que a transição climática só será justa quando os territórios forem protagonistas das decisões. Apresentou a Declaração Sul-Sul pela Sociobioeconomia como Solução Climática, catalisada pela Conexsus e assinada por mais de 60 entidades do Sul Global, incluindo mais de 20 organizações da Indonésia, onde pequenos produtores respondem por cerca de 90% da produção nacional. Também destacou a adesão de comunidades da África Central e de toda a Pan-Amazônia. Segundo Fabíola, a disputa não é apenas por recursos financeiros, mas por acesso, governança e reconhecimento de que a sociobioeconomia é uma solução construída pelos povos e territórios.

 

Brasil tem papel estratégico na defesa dos agricultores familiares
A quarta fala foi de Gisele Obara, que ressaltou que o Ano Internacional do Cooperativismo coincide com os 20 anos de história de luta e resistência da Unicafes, tornando simbólica e histórica sua presença na Blue Zone da COP30. Ela explicou que a Trias, organização com atuação na América, África e Ásia, busca fortalecer organizações de base e reconhece na Unicafes e em suas lideranças, como Fátima Torres e Aparecido de Souza, vozes fundamentais para o fortalecimento do cooperativismo no Sul Global. Gisele lembrou que a Unicafes é hoje a única organização de agricultores familiares da América Latina a integrar a Farmers Constituency da UNFCCC, o que dá ao Brasil um papel estratégico na defesa dos agricultores familiares e no acesso aos instrumentos financeiros discutidos na COP.

 

Enfrentar os efeitos das mudanças climáticas  
Lily Tanui também se pronunciou, trazendo a experiência do Quênia, onde agricultores enfrentam graves problemas de degradação do solo. Ela destacou a enorme capacidade de adaptação e resiliência dos agricultores quenianos e enfatizou que incluir mulheres e jovens na agricultura, além de garantir apoio para que pequenos produtores acessem mercados, é fundamental para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e fortalecer cadeias produtivas sustentáveis.

 

Agricultura familiar é parte da solução climática e deve ser reconhecida como guardiã de biomas
Encerrando o painel, a presidente da Confederação Unicafes, Fátima Torres, afirmou que a COP30 tem um significado especial para a agricultura familiar brasileira, que passa a ter um espaço próprio e legítimo dentro do debate climático internacional. Ela apresentou dados do mapeamento feito pelo Grupo de Trabalho de Sustentabilidade da Unicafes, que constatou que 92% das cooperativas da rede desenvolvem práticas sustentáveis. Fátima defendeu que a agricultura familiar é parte da solução climática e deve ser reconhecida como guardiã de biomas, lembrando que não é aceitável que grandes produtores que desmatam recebam créditos de carbono enquanto agricultores familiares, que preservam florestas e a caatinga, fiquem de fora dos benefícios. Reivindicou políticas de Pagamento por Serviços Ambientais e mecanismos de crédito de carbono que incluam os pequenos produtores. Ela destacou ainda a atuação internacional da Unicafes e a força dos coletivos de mulheres e juventude, que organizam diálogos em todas as regiões do Brasil e em diversos países da América Latina, e reafirmou o compromisso da organização em ampliar o alcance do cooperativismo solidário para além das fronteiras nacionais.

 

O painel da Unicafes na COP30 consolidou, assim, a agricultura familiar como protagonista da agenda climática global e reforçou a urgência de valorizar modelos cooperativos que unem justiça social, preservação ambiental e fortalecimento econômico. A presença de lideranças internacionais e o protagonismo da Unicafes demonstram que a transição climática justa passa necessariamente pelos territórios, pelos agricultores familiares e pelas organizações que os representam.

 

 
ATENDIMENTO
(61) 3964-4462
secretaria@unicafes.org.br

REDES SOCIAIS
2025 - Todos os direitos reservados
Desenvolvido por Mar Virtual