Petistas protestam contra decisão da cúpula nacional do partido 17/06/2010 às 17:50
O homem forte convalesceu. Aos 74 anos, Manoel da Conceição Santos, pode estar abatido pela greve de fome que se impôs, entretanto, não deixa murchar a força que ainda tem pelas causas políticas e sociais em que acredita. Chegamos após o almoço e o procuramos pelo Congresso Nacional. A informação era de que ele estava hospitalizado. Seguimos até o posto médico da Câmara dos Deputados e lá estava ele, apesar de abatido, com forças para denunciar os jogos de interesse que se formaram no Maranhão. “Enquanto eu tiver forças para falar eu estarei denunciando”. Ontem ele deu pausa na greve pelo convencimento de amigos, mas não da causa.
Ao lado do leito hospitalar, sobre um sofá, está o colete improvisado com frases de efeito: “A dívida do governo com o Sarney é impagável. Quem vende petistas para Sarney tem salvação?”. é a farda da batalha de Manoel. Ele empunhou suas armas assim que o Partido dos Trabalhadores Nacional se negou a apoiar a decisão da militância do partido no Maranhão em apoiar o candidato Flávio Dino (PC do B - MA) ao governo do estado e resolveu apoiar a candidatura à reeleição de Roseana Sarney. Esse foi o primeiro golpe e ainda no dia três deste mês, Manoel redigiu uma carta ao seu companheiro de luta, o presidente Lula. Sem efeito, no dia dez o deputado federal Domingos Dutra (PT-MA) iniciou uma greve de fome e Manoel iniciou no dia seguinte. Juntos, os dois seguiram para Brasília até a Câmara dos Deputados onde se mantém para protestar contra tal decisão.
Ele nunca foi eleito deputado, governador, senador, vereador ou para qualquer outro cargo eletivo. No entanto, ele já foi considerado a mais importante liderança camponesa do Brasil em todos os tempos. Ao lado do presidente Lula, é uma das personalidades do Partido dos Trabalhadoresque mais merece respeito. Foi o terceiro membro do partido e um de seus fundadores.
A um mês de completar 75 anos, o mais velho fundador do PT vivo, Manoel se encontra em uma situação complicada para sua saúde. Tem diabetes, sofreu um acidente vascular cerebral em 2002 que quase o matou e ainda hoje lhe causa dificuldades na fala. “Além de todos os problemasde saúde que ele tem, ele já sofreu os traumas da ditadura. Foi preso e torturado nove vezes pela polícia. Em uma dessas vezes levou um tiro de fuzil na perna que gangrenou e teve que ser amputada. Os traumas dele são físicos e psicológicos”, explicou a professora da Universidade Federal do Maranhão, Ednalva Lima, também militante do PT naquele estado.
O deputado federal do PT do Paraná, Assis do Couto, também estava presente oferecendo apoio a Manoel. Questionado sobre sua posição no partido ele respondeu: “Se não posso expressar a minha opinião, qual é o objetivo de eu estar deputado?”. Juntamente com o deputado federal os membros da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), exprimiram todo apoio à causa dos dois petistas grevistas. “Seu Manoel é a história viva de construção de um País onde a classe operária se libertou da opressão e das oligarquias políticas que serviram à ditadura militar. é o exemplo vivo de resistência e luta contra as injustiças sociais e defensor da liberdade de expressão da classe trabalhadora. O partido precisa se sensibilizar, justamente pela importância que Manoel tem na história do partido, e rever sua posição”, afirmou o presidente em exercício da Unicafes, Silvio Ney Monteiro.
A resistência
A história da luta contra o senador Sarney é histórica para o PT maranhense. Iniciou-se ainda na década de 1960. Manoel foi entregue à polícia, em uma ocasião, pelo próprio Sarney e ficou jogado em uma cela, ocasião que lhe tolheu a perna. A perna baleada gangrenou e foi amputada em um hospital de São Luís. “O Sarney me visitou no hospital e tentou me comprar oferecendo algumas regalias e uma perna mecânica. Em troca, queria que eu trabalhasse para ele. Recusei e lhe disse que minha perna era obrigação da classe que eu defendo e não dele”, contou Manoel.
Ele foi preso nove vezes a mando de Sarney e, explica ele na carta enviada ao presidente, que é por isso que nunca apoiará a oligarquia da família Sarney no Maranhão. A suspensão da greve de fome, por 24 horas, de Manoel também se deve a tentativa do PT em dialogar com eles a respeito do apoio no Maranhão. Os dois grevistas amedrontaram a alta cúpula do partido que teme que a imagem da candidata Dilma possa ser abalada com essa greve.
Oniodi Gregolin
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